O festival SWU, que aconteceu de 9 a 11 de outubro na Fazenda Maeda, em Itu, recebeu um público de 164,5 mil pessoas em seus três dias para curtir shows de mais de 70 atrações como Rage Against the Machine, Joss Stone, Los Hermanos, Pixies, Queens of the Stone Age e Linkin Park.
Não foi uma tragédia, mas quase. A saída do público do primeiro dia do SWU poderia facilmente ter entrado para as páginas negras da história do festivais de música ao redor do mundo. Um total de 47 mil pessoas (público informado pela produção) vagava sem nenhuma informação, perdidas entre pessoas da organização despreparadas, nenhuma placa de informação e a escuridão das ruas de terra batida da Fazenda Maeda.
Logo na primeira música, "Testify", o que se viu na Pista Comum, a poucos metros da grade que a separava da Pista Premium, foi um verdadeiro "furacão humano". Pessoas foram esgamadas umas pelas outras, fazendo com que o desespero e o medo tomassem conta dos que ali estavam. Naquele momento não houve saída e, então, o pior (ou melhor), aconteceu. A grade que isolava as câmeras detelevisão do público cedeu e, em segundos, foi ocupada por centenas de pessoas. O caos durou até "People Of The Sun"
Quatro músicas após o início da apresentação, ocorrida às 22h20 deste sábado (9), o vocalista Zack de la Rocha teve de interromper o show pela primeira vez depois que fãs da primeira fila da pista Premium forçaram a barricada que separava o público do fosso do palco e tentaram invadir a área. Diversas pessoas tiveram de ser retiradas à força pelos seguranças e ao menos quatro foram atendidas no Posto Médico do festival.
Mas apesar dos pedidos de Zack de la Rocha para que os fãs se acalmassem e dessem um passo atrás, o público minutos após o reinício do show. A banda tocou mais duas músicas e teve de fazer nova pausa enquanto a organização reforçava as barricadas com barras de ferro de apoio.
Dali em diante, o Rage não parou mais - e nem poderia, sob o risco de o público se exaltar e provocar um estrago ainda maior. Ao longo dos cerca de 40 minutos restantes de show, o clima continuou tenso entre fãs e seguranças.
Porem o caos começou logo após ao término do show do Rage Against The Machine. A maioria do público partiu em direção aos bolsões de ônibus para pegar um translado para os bolsões de estacionamento, em Itu. Porém, não haviam ônibus. As filas imensas davam voltas e ninguém sabia informar a qual destinava cada uma. Algumas pessoas já esperavam os veículos antes do show do Rage Against The Machine terminar, mas nada de condução.
Grande parte do público decidiu fazer o caminho à pé, o que transformou a rua de terra batida da Fazenda Maeda em terra de ninguém, um pequeno espaço ocupado por carros, ônibus e milhares de transeuntes. Um grupo de pessoas, ao ver um ônibus vazio partindo em direção à saída, conseguiu “convencer” o motorista a abrir a porta, e o veículo lotou em aproximadamente três minutos. Ninguém mais entrava, não havia espaço.
Assim que o motorista fechou a porta, dezenas de outras pessoas começaram a bater nos vidros do ônibus pedindo uma vaga na condução. Um rapaz, com o tiquete da passagem na mão, batia violentamente no vidro do motorista gritando e chorando: “Eu paguei o ônibus. Eu quero ir embora”. Um amigo, na janela ao lado, provocava o piloto: “O ônibus não está saindo do lugar e o motor está ligado. Esse é um evento de sustentabilidade”.
Uma cena de stress era protagonizada a cada cem metros que o ônibus conseguia se locomover. Alguém parava ao lado do motorista, pedia “pelo amor de Deus” para que ele abrisse a porta, e o piloto alegava que não cabia mais ninguém no veículo. Um rapaz, deitado no painel e com a cabeça embaixo do volante, era o retrato da lotação, mas ninguém queria saber. Geralmente esmurrava o vidro do carro enquanto os ocupantes do ônibus diziam que o motorista não tinha culpa e estava apenas trabalhando (ou tentando).
Os dois pontos de maior risco foram próximos a saída para a Rodovia Castelo Branco. No primeiro, rapazes em uma Meriva tentaram cortar o ônibus pela direita. Impossibilitado de ver o veículo ao lado, o motorista acelerou e deu no meio do carro dos rapazes, que desceram no mesmo momento e tentaram partir para a violência, cobrando do motorista do ônibus uma atitude. Seis carros da polícia passaram ao lado, e não pararam para resolver o imbróglio, que terminou em um bate boca (e em um quase racha na Castelo Branco: isso mesmo, um racha com quase 100 pessoas num ônibus).
Assim que o ônibus passou pela área de congestionamento (causada pela junção da saída do estacionamento simples - em quatro faixas - com a estrada que trazia os ônibus da entrada principal), um grupo de pessoas com pedras tentava quebrar os vidros do ônibus ante a negativa do embarque. Junto, o rapaz da Meriva incitava o quebra quebra. A polícia, a 100 metros, só dispersou o público quando o motorista, após alguns minutos de tensão, sinalizou com os faróis que havia algo errado.
“O público - cerca de 50.000 pessoas - também travou uma batalha para comer. Primeiro pela falta de organização e a fila que se formava nas barracas que serviam lanches e salgados. Nas filas dos caixas, a reclamação maior era do preço da cerveja, R$ 6 por uma lata de 300 ml, e do preço da água, R$ 4, por um garrafa de 300 ml. Para quem está acampando, o almoço nos restaurantes do camping não saia por menos de R$ 12 o prato, podendo chegar a R$ 20. Os lanches das praças de alimentação distribuídas pelo espaço do festival não eram menos abusivos: um simples pão de queijo custa R$ 4 um sanduíche natural R$ 10. Para quem deseja uma comida que sustenta mais, como um cachorro quente completo ou mesmo um cheese burguer, é impossível gastar menos de R$ 8.”
“a falta de banheiros químicos, que acabaram por ser substituídos pelo mato ou pelasproteções laterais da fazenda, que viraram um verdadeiro sanitário gigante a céu aberto. Quem se deu mal foram as mulheres, que tiveram muita dificuldade para conseguir qualquer informação sobre os sanitários.”
“E se em um grande festival de música deve-se primar pela qualidade de som, o SWU cometeu um erro grave. Durante alguns momentos das músicas "Township Rebellion" e "Bullet In The Head", um problema no sistema de som fez com que todos na Pista Comum ficassem sem o áudio do show - enquanto os músicos continuavam a tocar sem perceber o ocorrido. O que se ouviu nesse momento foram muitas vaias ao festival, que vendeu uma imagem totalmente diferente do que realmente foi.”
“Infelizmente, o que se viu depois foi muitas pessoas desistindo do show, procurando ambulatórios ou deitando na grama (ou terra) para se recompor.”
Assim que entrou na Rodovia Castelo Branco, após alguns metros emparelhado com a Meriva detonada, o ônibus seguiu seu trajeto até o Bolsão do Kartódromo. O trajeto que custou 25 minutos na vinda, às 16h, demorou 3h30 durante a madrugada. Segundo tweets, como o do Fabricio Vianna (@fabriciovianna), “teve uma galera que colocou fogo na passagem pra não descer mais de ônibus”. Já o Alexandre Pera (@alexandrepera), “as fichas de alimentação acabaram. A cerveja que era tabelada, aumentou”.
A noite para a Letícia Ribeiro (@anthems_antics) foi ainda mais traumática: “Cara, devolvemos nossos ingressos de hj pq fomos roubados por uns carecas em pleno show do RATM! Foi muito tenso! Nós reagimos ao roubo, mas não tinha segurança por perto! E a galera de fora balançava nosso ônibus”. Se musicalmente, a primeira noite tinha sido ok sem grandes destaques (talvez o coito interrompido do RATM), a desorganização na saída simplesmente transformou um cenário de festa em um caos, quase um campo de guerra.
Fonte : Calmantes com Champagne, G1, Whiplash!





